Contos de amor e outros..

Aquela voz despertou algo estranho em mim. Normal: coisas estranhas acontecem comigo o tempo todo. Antes de revelar de quem era a voz, vou me apresentar. Eu me chamo Melissa, tenho 18 anos e sou cega. Nasci assim. Felizmente, sempre consegui ter uma qualidade de vida razoável. Morava em Ilha Bonita, uma pequena cidade no litoral do Maranhão, e minha vida era simples. Meus pais tinham uma doceria e eu os ajudava no balcão.


Com sensibilidade aguçada para reconhecer formatos, cheiros e sabores, sabia atender a todos os clientes com precisão. Bebidas, café fresco, salgadinhos recém-saídos do forno, docinhos coloridos ou sorvetes de frutas. Conhecia cada um desses itens, num mapeamento que existia na minha mente. Não entendia bem suas cores, mas, de resto, percebia cada aroma e textura como poucas pessoas poderiam fazer.
Fora isso, meus pais colocavam tudo em lugares pré-marcados e depois me diziam onde estavam. Daí eu não passar aperto quando dona Gessieme pedia todas as manhãs: “Melissa, quero um brigadeiro daqueles ali!” Eu imaginava que ela fosse gordinha, porque nunca comia menos do que um. Por incrível que pareça, apesar de ser pequena, Ilha Bonita tinha uma ONG. Iniciativa de uns padres gringos, acho eu... Só sei que, graças a eles, tive acesso a uma escola para deficientes visuais, instalada na igreja de um bairro próximo.
Papai me levava até lá diariamente. Foi ali que aprendi o Braile, um sistema de escrita em relevo para cegos. Lá também fiz amizades com pessoas como eu. Não fossem eles, nem sei o que seria de mim num lugar tão longe de tudo e todos.
Um dos meus passatempos prediletos quando não tinha cliente para atender era ouvir. Prestava uma atenção danada a tudo o que acontecia ao meu redor. Sons de carro, de gente falando, de gente respirando, de pássaro, de cachorro latindo. Cada um criava imagens em minha cabeça. E assim eu conseguia, mais ou menos, criar um ambiente visual ao meu redor.


Havia uns rapazes bem saidinhos que iam lá na venda. Vez ou outra, tocavam minha mão e a tiravam rapidinho. “Menina loira aqui nessas terras chama a atenção mesmo”, dizia mamãe, quando eu falava sobre isso. Por isso, desenvolvi uma técnica. Quando o cliente tinha voz de homem jovem, dava um jeito de fazer minha mãe atendê-lo. Ninguém iria mexer com ela, mesmo porque papai era um cabra macho, muito bravo.
Naquela manhã de sábado, porém, cometi um deslize e, sem perceber, fui pegar um bombocado para um homem que tinha voz jovem e desconhecida. “Obrigado!”, ele me disse, sem tocar em mim. Senti uma doçura imensa vinda de sua voz. Ao mesmo tempo que era máscula, exalava uma delicadeza incomum aos tipos que costumavam freqüentar o nosso estabelecimento.
Só sei que me senti imediatamente estranha. Uma estranheza até então inédita na minha vida. O coração bateu forte, as mãos suaram. Aflita de vergonha, não sabia onde pô-las. “Bombocado gostoso. Vocês que fazem?”, perguntou a voz. Prestei atenção na respiração, em seu ritmo ao mastigar. “Err.. Minha mãe quem faz!”, respondi, insegura.


De repente, o ar ficou silencioso. Eu odiava isso. Será que ele havia ido embora? Então, a voz doce voltou. “Sou novo por aqui. Meu nome é Danilo, muito prazer!”, disse, com charmosa formalidade. Sorri, mas não me mexi. “Sou fotógrafo de uma badalada revista de turismo e vim fazer um álbum sobre as belezas naturais da cidade”, prosseguiu, como se tentasse explicar a razão de sua existência para mim.
Até hoje não sei dizer bem o porquê, mas o fato é que fui tomada por uma súbita vontade louca de dizer algo que o impressionasse e, quase sem me dar conta do que fazia, perguntei: “Moço, qual é a cor dos seus olhos?” Segundos depois, veio a resposta, num tom surpreso e divertido: “Azuis, como o céu”. Eu sorri novamente. Um sorriso tímido, que espelhava um sentimento estranho que surgia dentro de mim e que eu ainda não sabia direito qual era. Fonte internet - JDCavalcante.